BLOG DAS SERVAS

  • Helena T. Rech

TEMPO DE PANDEMIA... ou de TRAVESSIA? Parte 2

Quem sou? para onde vou?


Há pouco tempo escrevi um breve texto sobre o tempo que estamos atravessando. Compartilhei um pouco daqui que experimento e vivencio no cotidiano do isolamento social. Um olhar teológico-espiritual. Tempo este de profundas travessias, descobertas, encontros, “perdas” e “ganhos”.


Tenho refletido e rezado em tantas dimensões da vida humana; experimentado e contemplado em meu interior mudanças, apelos, nascimento de novas idéias, atitudes. Acordado sonhos, desejos e encontrando-me com antigos e novos caminhos que me desafiam e são apelos interiores do Amado.


Surpreendo-me porque meu lado artístico e místico encontrou espaço em mim e pude dedicar mais tempo e cuidado ao meu jardim interior e exterior. Foi tempo propício para limpar plantar, podar, plantar no jardim, coisas que amo fazer.


Nesta dinâmica toda de Pandemia, fica em casa, usa máscara, lava as mãos, usa gel... surgiram algumas perguntas: – quem sou? Para onde vou? Como está minha casa interior neste tempo? que máscaras eu uso e para quê? Muitas perguntas vieram de graça e acredito para ser “graça” de transformação. Cheguei até partilha com uma amiga que estou em “metamorfose”. O tempo da pandemia transformou-se em mim “tempo de metamorfose”. E aguardo feliz o nascimento linda borboleta que ainda não tem nome, mas estou intuído que o nome mais lindo e acertado será - “libertação interior”.


Tempo de pandemia – “libertação interior”, não importa o nome... importa recolher-se e voltar para “dentro de sua casa”, sem medo das dores do “parto” . Aí na sua interioridade encontrar o “centro gravitacional” da própria vida. Viver a hospitalidade, o acolhimento de tantos que precisam de nós; que precisam de abrigo e proteção. Que precisam de um olhar, um abraço, uma palavra ou de escuta... mesmo que seja virtual. O ser humano no contexto social pós-moderno, não apenas perdeu de sua casa exterior e vínculo familiar, mas também se perde de sua “casa interior”. Pegou a “carona” de tantos vírus pós-modernos... perdeu o caminho, o endereço e a direção de sua “morada interior”.


Neste “Centro gravitacional”, faz-se importante revisitar nosso “Jardim Secreto”, buscar e beber do nosso “Poço” interior. Isto, se ainda houver ‘águas cristalinas’ que matam sua sede. Você tem cuidado de seu “poço” interior para não se contaminar com tantos venenos mortais da pós-modernidade?


As Estatísticas apontam milhões, bilhões de mortos no mundo. Ficamos assustados, mas no fundo pensamos: não estou nesta lista. Ou dizemos: eu me cuido; estou protegida/o.


- Como, tudo o que está acontecendo, o vemos e ouvimos, nos afeta? nos abre e compromete? Ou essas manchetes simplesmente passam pelos olhos, atravessas os ouvidos e escorrem pelo ralo do esgoto?


- Quem sou neste contexto?

É tempo de pandemia no mundo todo. Na liturgia estamos no tempo Pascal, de ressurreição e vida nova em Jesus Ressuscitado: “Precisamos adquirir uma consciência mais profunda da vida enquanto “seres já ressuscitados”, perceber as pulsões desta vida eterna que está em nós...”[1].


Sinto-me um “ser ressuscitado”? Capaz de olhar para vida com e como Jesus? Nele eu sou o seu olhar, o seu coração que ama e pulsa com Pai, sou sua presença discreta, transformadora, libertadora e feliz? Sou presença próxima dos pequenos e pobres e carrego em mim a vida nova impregnada do milagre de sua ressurreição? “Minha vida é uma sucessão de milagres interiores” (Etty Hillesum).


Esta frase de Etly é expressão pascal carregada de sabedoria e uma profunda espiritualidade que pode nos iluminar para responder as perguntas que nos fizemos no início desta reflexão:


- Quem sou? Para onde vou? O que busco? Que máscaras uso?

Neste tempo de isolamento social, estamos sempre conosco mesmos, com as mesmas pessoas, no mesmo espaço físico, ouvimos as mesmas reportagens e notícias, umas verdadeira e outras distorcidas; presenciamos nas mídias gestos proféticos, solidários, partilha de bens e de dons, acolhida. Todos os agentes de saúde doando-se sem reservas; empresários repartindo seus lucros com Instituições, ONGs que cuidam da vida e dos pobres


Igualmente, estamos em contato com pessoas egoístas, gente com pensamentos tóxicos, desesperados, obsessivos, pessimistas, revoltados, depressivos...

Convido você que está lento este texto a refletir, entrar em sua casa interior, tirar as “marcaras” e responder as perguntas acima.


Cada pessoa tem sua resposta e seu olhar para o tempo presente. Estamos diante de tantas mortes, tantas dores, tantos desafios, apelos, travessias... por outro lado, gente que não respeita o isolamento social, que pensa e caminha na contramão de tudo e de todos, disputas políticas, de idéias, de poder... enquanto tantas pessoas morrem e nossa “Casa comum” , quer respirar e se renova.

A escolha é nossa:


- silenciar, apagar os holofotes do poder que confunde as pessoas, deixar brilhar LUZ do Ressuscitado em nosso interior e acolher seu amor redentor para nos iluminar e conduzir;


- silenciar nosso interior e abrir os ouvidos do coração para perceber as batidas do coração de toda criação, respirar seu ar mais puro, olhar o céu azul e as noite estreladas.


- despojar-se de uma vida estreita, estéril, engessada, repetitiva para viver a partir do coração, da vida mais profunda gestada no coração da Trindade;


- deixar a psico-somatização, o pessimismo e o medo... para despertar dentro de nós e dos outros a VIDA fecunda, libertada e todo nosso potencial humano-espiritual para a integração, a ternura, a solidariedade e a comunhão;


- abrir espaços para a vida, deixar-nos engravidar para gerar e alimentar a vida “em abundância” n’aqueles e aquelas que nos são confiados;


- perceber o dom da vida e saber sentir e chorar com quem perde seus entes queridos, ser dom e presença consoladora;


- ser suporte nas torrentes do mar revolto desta Epidemia para quem está naufragado na incerteza, dor e desesperança;


- destravar e reabrir a “porta principal” da nossa existência diante a “cultura do descartável”, para que de nosso interior brote a esperança que tudo renova e dá sentido à vida.


Juntas/os constatamos que estamos em perigosas “travessias”. mas igualmente esperamos confiantes um “novo céu, uma nova terra e uma nova humanidade”. Amém.


Ir. Helena T. Rec STS

São Paulo, 14/05/2020


Dia mundial de oração pela saúde das as pessoas infectadas.

E-mail para contato - irhelenasts@gmail.com

[1] Pe. Adroaldo, reflexão do evangelho domingo do Bom Pastor

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